home
homepage

Livro Nostradamus para baixar

 

O Maior Pecador de Todos os Tempos

Uma novela histórica e espiritual sobre a vida de Nostradamus, o famoso vidente do século XVI, fácil de ler.

Depois de uma infancia feliz, Michel de Nostredame, já um jovem médico, supera com sucesso a praga da ultima parte dos tempos escuros da Idade Média na França. Depois, entretanto, uma grande calamidade cai sobre a sua familia, inteiramente destruindo a sua vida...

Uma novela de Eric Mellema


Traduzido para o Português por Katarina Peters
Translator English Portuguese


capa do livro - versos, quadras, profecias



Livro eletronico gratis em pdf
Livro eletronico gratis em doc





© 2006 Eric Mellema
Todos os direitos reservados





Agradecimentos a:

Katarina Peters
Maria-Bonita Kapitany
Jack van Mildert
Liesbeth Gijsbers
Moene Seuntjens
Marleen van Haeren
Ria Adriaensen
Els Pellis
Guus Janssens
Ronald Mengerink
Arthur Hendriks

Agradecimentos especiais a: Trudi Koning



Quadras usadas de As Profecias



Capitulo 1



"Brrr, que frio que está fazendo aqui!"
"Pare de reclamar, Mercury; só mais trinta e um dias até a sua transformação."
"Quem está aí?"
"E sou Hermes, o seu ego superior."
"Hermes, a sua visita é oportuna, pois essas reviravoltas chatas ao redor da minha órbita me deixam furioso."
"Bem, vou lhe dizer, Zeus decidiu que a sua tarefa está quase terminada. Você só terá de continuar a ser de carne e osso por um pouco tempo mais antes que possa brilhar."
"E como você sabe de tudo isso?"
"Sou o mais rápido na Via Láctea, e coloco o meu ouvido no chão aqui e ali, por assim dizer. Além disso, passar mensagens faz parte do meu trabalho."
"Quanto tempo ainda terei?"
"Até que você estiver alinhado com o Sol e a Terra, de modo que não vai demorar muito."
"Hmm..., pelo menos é diferente do que ser um planeta morto. Minha única diversão é causar ondas de choque e banhos de sol."
"Essa vida simples vai lhe fazer falta, meu irmão material, mas tenha um pouco mais de paciência."

Um mês depois, um nascimento extraordinário aconteceu no planeta Terra. Alguém dotado de um dom profético sem precedência acabava de nascer. O nascimento do astrólogo na aldeia aconteceu no começo da Renascença, na cidade francesa de Saint Rémy de Provence. As contrações começaram numa mansão estatal por trás das alas do mercado onde os comerciantes proclamavam suas mercadorias há algum tempo já. Reynière de Nostredame tinha calculado minuciosamente a data do nascimento, mas o inicio do parto veio de súbito, de surpresa. O pequeno planejava vir ao mundo um pouco mais cedo, para coincidir com a mais propícia posição dos planetas. O epitélio, notadamente grande, que fecha a cérvice durante a gravidez, acabava de sair. Este era o sinal mostrando a chegada do fim da gravidez. Reynière perdeu um bocado de sangue e pediu que o pai, Jean de Saint Rémy, viesse ao seu lado; ele era o médico da Corte do Bom Rei René, o antigo Conde de Provence. Ela estava estendida na cama, perspirando, e seu marido, Jacques, que chegou a alcançar a posição de tabelião público, correu apressadamente para o seu lado junto com o pai dela. As contrações já vinham com regularidade e com dores, até que, no auge, de repente cessaram. O semblante do pai era o de preocupação, tocando no ventre da filha com o seu toque profissional. Aliviado, o médico determinou que a criança a nascer estava se movimentando e que Reynière estava perdendo o saco amniótico à taxa normal. As contrações regulares voltaram e as membranas romperam, o parto estava em bom andamento. Devagar mas com certeza, o corpo de Rayinière fez uma abertura para o bebê passar. A cérvice, fechada durante a gravidez, estava se abrindo gradualmente. O recém-vindo, curioso, estava lutando como se a sua vida dependesse dessa luta e a expulsão foi cansativa ao extremo. O parto iria durar umas 10 horas. Finalmente, a cabecinha emergia com o olhar bem aberto, absorvendo criticamente o mundo. Jean e Jacques estavam maravilhados e se entreolharam com grande alegria. Em seguida, os ombros e o resto do menino deslizaram sem maiores problemas.

"Michel!" a mãe recebeu com orgulho o pequeno pacote molhado. Jean pegou com cuidado o bebê, que estava ligeiramente ensanguentado, ainda ligado ao cordão umbilical, e depositou-o no ventre da mãe. O menino nasceu com uma coifa*. (membrana cobrindo a cabeça). Michel de Nostredame apareceu exatamente ao meio-dia do dia 14 de dezembro 1503, com os sinos da igreja Saint Rémy soando no fundo. Os pais estavam jubilosos com o primeiro filho, que teria um futuro seguro como Católico. Jacques e Reynière eram ambos descendentes de antigas famílias judias, mas alguns anos atrás, todos os judeus eram forçados, sob pena de morte, a converter ao catolicismo. Uma menora ainda estava, todavia, sobre a mesa, simbolizando o festival judeu das luzes, Hanukkah, que era celebrado naquele mês. Para estas festas especiais, a tradição foi honrada em segredo, mas Jacques sempre lia do Talmude. Desta vez, ele se dirigiu com cerimônia ao filho recém nascido, rodeado por toda a família, e lhe disse que o Talmude falava das maravilhas do Hanukkha. Michel, seguramente embrulhado em fraldas de recém-nascido, só ouviu alguns sons paternos.

Quando o pequeno, rastejando e mais tarde andando, começava a descobrir o mundo, ele se mostrou um garotinho muito curioso. Ele queria investigar tudo ao redor, examinando cada objeto. Ele se entusiasmava com as visitas, com cujos cabelos às vezes gostava de brincar. Em breve ele estendeu seus horizontes para fora de casa, onde ignorou as outras crianças de sua idade. Em sua opinião, elas brincavam sem rumo, indo aos círculos. Um dia, ele apagou o fogo na lareira com água e ficou sentado olhando para as nuvens de vapor com grande fascinação. Durante sua primeira visita ao mercado, a sua vocação apareceu. A família estava passando pelas bancas expondo as mercadorias. Por causa de sua pequena estatura, Michel se divertia com o que acontecia por baixo das mesas de taboa: restos de peixe, frutas apodrecendo, restos de sangue, sacos rasgados de juta, um rato roendo aqui e ali, e inúmeros pés ruminantes. Sua mãe prestava atenção a ele de perto. A família De Nostredame parou numa estante com artigos de vidro, querendo comprar alguma coisa bonita para as festas. No século anterior, só se via copos de beber no meio da elite social, mas agora o vidro era produzido em maior escala, que o tornava mais acessível. O comerciante ansioso logo agarrou a louça mais delicada, colocando-a entre seus dentes, querendo impressionar a jovem mãe.

"Sabe, minha Senhora, louça de cerâmica e de madeira é funcional, mas muito feia. Louça de vidro é a ultima moda agora." Reynière escutou alegremente, segurando a mão do filho perto dela.

"Temos muitos tipos de copos de vidro para beber," ele continuou. . "Veja este copo esplendido com a haste em forma de funil, e taças tipo cálice com pés altos e graciosos. Ali atrás, copos de forma cilíndrica, decorados com bolinhas.

"E este, que tipo é?" ela perguntou.

"Estes são Birkemeiers, Senhora, copos de beber em forma de funil, adornados com bordas finas na base."

O comerciante pegou tudo do armário porque a família aparentava ter dinheiro para gastar. Jacques achou que os copos com as bordas eram bem bonitos.

"Os de bordas são muito populares," o comerciante repetiu imediatamente, "além destes copos de beber de baixos pés, pés de couve e Birkemeiers, naturalmente."

"Para que servem os relevos?" indagou Reynière.

"Os relevos ou bolinhas dão um melhor aperto no copo."

"E quais são os que vendem mais?" perguntou o marido.

"Os copos de vidro vendem particularmente bem. Objetos para despejar, como garrafas, são muito, muito caros." O especialista foi aparentemente o único na área que possuía uma grande coleção de peças de vidro e ele mostrou com orgulho a sua garrafa mais bela. A família estava sendo completamente fascinada pelos seus produtos e Jacques perguntou ao homem se lhe permitisse de olhar a garrafa mais de perto. O pequeno Michel estava se comportando extremamente bem durante todo este tempo e olhava em silêncio as caixas meio-enchidas por debaixo da mesa. Em cima, Jacques pegou a peça de amostra desajeitadamente, que de repente escapou da sua mão. O choque esperado da caída porém não veio, e todo mundo ficou estupefato concentrando o olhar para baixo, onde o filho deles tinha apanhado com facilidade a preciosa garrafa. Ele levou o presente celestial aos lábios, após o que o dono pegou a garrafa das pequenas mãozinhas. Depois de muitas desculpas, a família desiludida foi para casa sem ter comprado nada. Quando chegaram em casa, o pai, que escapou por um triz com apenas um susto, encheu o filho de elogios.

Os pais deixaram a educação do filho ao avô. Com o erudito Jean, ele estava em boas mãos. O astrólogo e ex-médico da corte ensinou ao neto não só matemática, mas também grego antigo, latim e hebreu, assim como os princípios básicos de astrologia. Jean levava o menino muitas vezes à aldeia à noite, assim podiam deitar-se no gramado e ficar contemplando as estrelas. Ali, ele lhe ensinou que o firmamento do norte podia ser visto melhor no inverno e os céus do sul no verão e que as constelações do inverno, como a Canis Major e a Canis Minoris, podiam ser facilmente encontradas, usando a estrela Orion como guia.

"Quando crescer, eu também quero ser uma estrela," disse seu neto.

"Estranho de você dizer isso. Eu estava justamente pensando no conto onde alguém é posto no céu como estrela, é de castigo. O conto diz que o Orion estava correndo atrás das suas sete irmãs, as Plêiades. As irmãs ficaram apreensivas e rezaram por socorro, o que causou a deusa de caça vir socorrê-las, matando o irmão delas com uma de suas flechas. Então, Orion foi posto no céu como estrela. Mas eu não sei se isto for possível também para gente de carne e osso, Michel. Embora acabe de me lembrar, há uma menção disto nas antigas escrituras sagradas. Então, quem sabe? Aliás, as Plêiades são visíveis a olho nu. Olha, ali estão elas," e Jean ergueu o seu braço para o céu negro.

"Aquelas estrelas parecem que estão tocando umas às outras," o menino observou.

"Sim, assim parece, mas na realidade elas estão muito longe um do outro."

Com a chegada da primavera, Vovô mostrou a Michel as estrelas Arcturus, Regulus e a Spica cintilante, as estrelas mais luminosas no céu primaveril, que juntas, formaram o Triângulo da Primavera. Naquele verão, as estrelas não foram claramente visíveis e não foi até o outono que o avô mostrou o cavalo alado, Pegasus, que às vezes fica difícil de achar porque está de cabeça para baixo. Através dessas pequenas excursões o Michel aprendeu a reconhecer as constelações e os pais continuavam a se queixar que ele e o avô sempre chegavam tão tarde à noite para casa.

Uma noite clara, quando Jean levava seu neto a passear outra vez, o tempo mudou de repente e tudo ficou escuro. Nenhum corpo celestial era visível e Michel amaldiçoou as nuvens escuras que estavam se juntando. Naquela noite, o pequeno maroto ficou se tornando e virando na cama, separada por longas cortinas dos outros lugares de repouso, não podendo dormir. Ele ainda estava zangado e desapontado, quando de repente, as venezianas da janela se abriram e um violento furacão o arrancou da cama. Ele mal conseguiu agarrar se à soleira da janela, com o seu corpo balançando por fora. Naquele momento, Reynière foi acordada pelo seu instinto materno e tremendo, sacudiu o marido para desperta-lo. Os dois correram para junto da criança que estava em perigo mortal. Juntos, puxaram a criança para dentro do quarto e fecharam a janela firmemente. Não tendo realizado o que realmente tinha acontecido, voltaram a dormir. Pouco depois, a janela foi puxada aberta outra vez. Novamente, o vendaval dirigiu sua energia para a criança dotada, com uma fúria febril. Dessa vez, os pais estavam lá num instante, impedindo a catástrofe antes que ele fosse chupado fora do quarto. As venezianas foram fechadas a pregos permanentemente. Esta foi uma lição que o filho nunca esqueceria. Ele resolveu nunca mais amaldiçoar qualquer pessoa ou coisa que fosse.

Um dia, uma mensagem chegou de Pierre de Nostredame, o avô paterno de Michel. O Pierre e a esposa moravam em Grasse e convidaram a família inteira a viajar e passar com eles algumas semanas. Pierre também era um médico do tribunal, ao serviço do filho do René, o Rei Bom. Depois que o paciente dele foi assassinado em Barcelona, Pierre se instalou na cidade do perfume em desenvolvimento. Jacques e Reynière decidiram aceitar o convite. Muitas preparações tiveram que ser feitas para a viagem, porque Grasse não estava exatamente ao lado, além do mais, eles tiveram mais quatro filhos com o passar dos anos; todos meninos. Uma casa cheia. Algumas semanas depois, a família estava pronta e todos subiram na carruagem alugada, que foi puxada por um time de cavalos. Pai, mãe e três filhos. Jean ficou em casa com os dois menores. Depois de alguns dias, eles alcançaram Cannes, e de lá um caminho os conduziu pelo interior em direção a Grasse. A paisagem era rodeada por todos os lados por colinas cobertas de árvores de folhagem luxuriante, convidando-os a repousar. Teria sido melhor se eles não tivessem parado, porque o pequeno Hector logo desapareceu e levou três horas para encontrá-lo numa racha nas pedras. E adivinhem quem o achou? Claro que foi Michel! Hector levou umas bofetadas e eles continuaram pelo caminho afora. Atrás deles, podiam de vez em quando vislumbrar o Mar Mediterrâneo. Não havia muitas flores crescendo na região do perfume. O verão estava no fim e as abelhas estavam procurando as ultimas gotas de mel. Finalmente, eles viram Grasse, situado numa ladeira da montanha, cercado por campos que só exibiriam novamente suas flores na primavera. Quando entraram na rica cidade comercial, os meninos ficaram encantadissimos com todas as visões. Havia todos os tipos de produtos de couro que, como dissera o pai, tinham recentemente espalhado um cheiro horrível. Para dispersar o cheiro penetrante do couro, o povo de Grasse adotou o método de saturar o couro numa mistura de gorduras animais e de flores. Necessidade é a mãe da invenção e deste modo, bolsas perfumadas, luvas e cintos se transformaram num verdadeiro furor da moda. A carruagem prosseguia laboriosamente, passando por muitas lojas exibindo mercadorias de couro, mas finalmente eles alcançaram o Place aux Aires onde os avôs viviam. Bertrand abriu impulsivamente as portas da carruagem para sair o mais depressa possível e começar com as brincadeiras, mas o pai o mandou parar.

"Primeiro você vai cumprimentar seus avós, rapaz", ele disse. Enquanto isso, Pierre veio para frente, oscilante, e se pôs a carregar as malas para dentro. Apesar da sua idade avançada, ele era muito vigoroso e ainda trabalhava no grêmio dos médicos. Depois de beijar o Vovô, os três irmãos correram extaticamente para a cidade afora, embora inteiramente desconhecida, mas ahh, tão atraente...

"Deixe que eles brinquem um pouco", Reynière disse, fatigada, ao marido, "isso nos dará a oportunidade de desembalar em paz.". As crianças, enquanto isso, ficavam desfilando em frente dos perfumadores, caldeiras de sabão, destiladores e outros comerciantes. Grasse era uma cidade deslumbrante, mas também muito suja e os esgotos abertos mal podiam tomar conta das montanhas de lixo. Não obstante, as ruas cheiravam maravilhosamente. Havia caixas, bolsas e balões cheios de água de flor, óleos, vinho, sabão de lavanda, erva e couro perfumado, por todos os lugares. Michel, de onze anos, sentiu-se num paraíso virtual para os sensos e estava particularmente encantado com um aroma especifico que o levou a uma ruela.

"Aonde você vai agora? " Bertrand e Hector exclamaram, surpresos. Mas Michel não disse e seguiu a pista estreita em direção a uma arcada que conduzia fora da cidade. Em baixo do arco de pedra ele parou por um momento, fechando os olhos e inspirou o aroma. Aqui, o cheiro era o mais pungente. Ele inalou o odor estranho que era ao mesmo tempo doce e profundo. Alguns minutos depois ele voltou, satisfeito, e viu os irmãos brincando na praça. Os dias voaram nesta cidade fantástica, e o amanhã seria extraordinariamente excitante: eles iriam visitar uma famosa perfumaria. O avô Pierre e Dona Amalfi, dona da fábrica, eram amigos. Ela tinha prometido à família uma visita guiada através da fábrica. Aquela manhã, eles foram andando entre os compradores potenciais que tinham vindo de longe e de perto, e Amalfi os levou pessoalmente para a visita. E todos os distinguidos convidados viram Hector com o dedo dentro do nariz, que depois foi castigado pelo pai. Amalfi, enquanto isso, falava aos convidados da sua famosa linha de perfumes.

"Estes frascos cerúleos contém vários tipos de água de toalete Soliflores para mulheres". Depois da introdução, o grupo passou para a próxima mesa, enquanto o outro filho começou a ser problemático. Bertrand tentou furtivamente abrir os frascos.
"Não os toque, Bertrand", o pai advertiu. A senhora felizmente não tinha notado e continuava: "Soliflores é uma água de cheiro feita de um só tipo de flor, planta ou fruta". Depois de uma relação elaborada do assortimento, os convidados a seguiram para a outra sala onde estavam expostos dispositivos engenhosos.

"Estes são nosso alambiques de destilação. A destilação foi desenvolvida pelos árabes". Escutando atentamente, Michel e o avô ouviram Hector choramingando à mãe que ele precisava urinar. Isto distraiu a dona da fábrica e ela tossiu agitadamente.

"Está certo, vai depressa para fora, mas fique quieto! " Reynière comandou o filho.

"O Jasmim vem originalmente da Índia que os marinheiros espanhóis introduziram há algum tempo em Grasse e por toda África do Norte. Maître Gantier conseguiu adquirir o monopólio dela", continuava a Senhora.

"Esta é uma boa oportunidade para comprar um pouco de perfume", Reynière sussurrou ao marido. Jacques concordou distraidamente, pois estava completamente envolvido com os cuidados aos filhos. Felizmente, eles estavam seguindo Pierre e estavam momentaneamente se comportando. O pai até que conseguiu pegar a ultima parte da historia:

"Se eu comparar isto com o jasmim que compro no estrangeiro, eu vejo que o jasmim de Grasse tem mais profundeza e volume. Oh, eu poderia contar-lhes muito mais sobre nossa perfumaria, mas está na hora de terminar a visita. Há alguma pergunta ou comentário?" Inesperadamente, Michel avançou com panache e perguntou se ele poderia dizer algumas palavras. O pai estava começando a ficar com dor de cabeça com esses comportamentos imprevisíveis dos filhos, mas Dona Amalfi ficou bastante encantada com o pedido do menor e estava de acordo. O coração de Michel começou a bater mais rapidamente. O pequeno profeta endireitou os ombros e com grande força, pronunciou a sua primeira profecia:

"Um dia, esta perfumaria ficará famosa. Isto será graças a um estudante com um nariz excepcionalmente bom. O nome dele é Montesquieu e ele produzirá três perfumes surpreendentes. No auge da sua carreira, ele criará um perfume estranho com o cheiro dos corpos de moças recentemente assassinadas. Depois da morte dele, o seu sucesso diminuirá." Com isto, o pré-adolescente terminou a sua oração e seguiu os pais com dignidade. Todo o mundo ficou estupefato e mesmo Amalfi não soube responder. Jacques decidiu não castigar o filho, porque o menino tinha seguido todas as regras de boa conduta. Ninguém mencionou a escura profecia novamente; eles não puderam fazer dela sentido algum. Um pouco embaraçado com o comportamento estranho do neto, Pierre agradeceu à proprietária a fascinante visita e a família voltou para casa. Logo, as férias iriam terminar.

Vovô Jean estava muito contente com o retorno, especialmente por causa de Michel, com quem ele tinha desenvolvido um laço especial. Quando a carruagem apareceu na rua deles, a Rue des Remparts, os olhares dos dois imediatamente buscaram contato. Hector e Bertrand estavam mortos de cansaço da longa viagem e foram diretamente para cama, mas Michel ainda estava cheio de entusiasmo pelo seu desempenho. Febrilmente, ele discutiu a estranha profecia e o seu desejo de falar com o avô. O cheiro estranho em Grasse tinha despertado algo nele, informou o pré-adolescente. Jean o levou a serio e sugeriu que compartilharia todos os seus conhecimentos relativos à astrologia com ele, mas agora Michel teria que ir para cama. Levou horas antes que a faísca diminuísse na sua cabeça, mas finalmente dormiu.

Alguns meses depois, Vovô pegou um momento propicio para avançar a educação do neto primogênito em astrologia. Ele decidiu contar todos os pormenores, levando-o ao sótão. Este era o lugar pessoal dele e ninguém era permitido de bisbilhotar ao redor sem ser convidado. Especialmente não permitidas eram as crianças, porque ele receava que os seus instrumentos delicados pudessem ser danificados ou os seus documentos se perderiam. Do seu fauteuil, o avô contou a Michel que ele tinha conseguido pegar uma peça engenhosa de equipamento ha algum tempo atrás em Paris. Consistia em duas lentes polidas dentro de um tubo pelo qual você poderia ver muito longe.

"Graças a esta invenção, um inteiro mundo novo se abriu para mim", ele disse, "e em minha mente, você tem agora idade bastante para entrar neste mundo. Eu prevejo um grande futuro para você. Você tem capacidades mentais excepcionais e isso é por que eu vou lhe contar agora tudo que sei sobre astrologia. Até agora nunca permiti a ninguém de permanecer neste quarto sem supervisão, mas para você eu estou fazendo uma exceção. Eu lhe dou agora permissão de usar todos os meus instrumentos e livros a qualquer hora que você quiser. Com isso, o avô se levantou e pegou um objeto grande de debaixo de um pano pardo.

"Usando este copo-espião, rapaz, você pode ver os planetas tão de perto que parece que você está ali. Mas primeiro, eu lhe darei algumas teorias, antes que explorássemos os céus". O neto estava olhando para o dispositivo excitante, seus olhos grandes como discos.

"A Astrologia procura a relação entre eventos no cosmos, na terra e nos seres humanos. Mas nós já não falamos sobre isto antes?" Michel sacudiu a cabeça - "não."

"Minha memória não é mais o que era, meu rapaz. Através desta pesquisa podemos usar a informação por um momento mais ou menos, para localizar uma série de eventos que a seguem. Em outras palavras: disto, nós podemos predizer o futuro. Isto é muito mais difícil do que parece. Desde o tempo imemorial foi aceito que o Sol, a Lua e os planetas influenciam nossas vidas aqui na Terra". O avô se levantou novamente, abriu a veneziana do sótão e colocou o copo-espião na sua base.

"Venha e fique de pé aqui. Há pouco o sol se pousou e nós provavelmente poderemos ver vários planetas. Deixe-me ver se… ali está! Olhe, Michel, pouco acima dos últimos raios do sol: Mercúrio, o planeta do intelecto e das capacidades mentais". Seu neto olhou pelo dispositivo e descobriu um planeta rosa que estava cintilando. Jean continuou.

"Como você sabe, a Terra gira ao redor do Sol em um ano e não ao contrário segundo as reivindicações da Igreja. Eles também estão insistindo que a Terra é plana e que você pode cair dela. Burrice! Eles preferem manter ignorantes os seus súditos."

"Mas o Sol também não faz um círculo todos os anos? "

"Sim, mas não ao redor da Terra, mas ao longo de vários grupos de estrelas. Esses grupos todos juntos são chamados o Zodíaco. Por exemplo, há os Gêmeos, Áries, Touro, etcetera."

"Eu sou um Sagitário."

"Inegavelmente, meu menino, mas levará algum tempo antes que o Sol passará por lá, porque nós não estamos vivendo atualmente na era de Sagitário."

O vovô olhou novamente pelo copo espião e continuou o seu relato.

"Mercúrio sempre está perto do Sol e por isso nem sempre é claramente visível, mas esta noite nós temos sorte", e ele passou-lhe o dispositivo.

"Aquele planeta não é muito excitante", disse Michel, enquanto investigava através das lentes.

"Bem, você devia ver a Lua", e Jean observou serenamente o corpo celestial no firmamento sem nuvens. Havia genuíno amor entre o avô e o neto. Talvez porque eles eram tão semelhantes. Eles tinham os mesmos interesses e eram de leve estatura. Só que o mais jovem ainda teve a vida pela frente e o Vovô obviamente não a tinha mais.

"É isto que você quer ver", disse Jean e deu um passo ao lado.

"Puxa! " exclamou Michel e contemplou a Lua gigantesca, cheio de crateras, montanhas e fendas.

"Alguém ali está dando voltas,Vovô".

"Ha-ha, isso é engraçado. Mesmo se isso fosse possível, a distancia é grande demais para sermos capazes de ver tão detalhadamente."

"Eu posso realmente vê-lo", o menino insistiu. "Ele está plantando uma bandeira com faixas e estrelas vermelhas e brancas". Jean fez um semblante de incredulidade e pegou o copo-espião. Lá estava a Lua, tão familiar a ele, distante demais para poder ver uma pessoa sobre ela.

"Eu não vejo o que você está vendo, Michel".

"Talvez isso seja algo que acontecerá no futuro? "

"Tudo é possível, meu menino, mas eu só posso falar de assuntos sobre os quais eu sei alguma coisa. Eu ainda quis explicar a você como lançar um horóscopo", e eles se sentaram na cama, deixando os céus para si.

"Para calcular um horóscopo, você precisa de várias informações, isto é, a data, a hora e o lugar de seu nascimento, mas a coisa mais importante é a data do nascimento. "Deixe-me mostrar-lhe o seu próprio horóscopo como um exemplo". O avô olhou para uma gaveta na escrivaninha e tirou um pedaço de papel coberto com símbolos estranhos.

"Aquele é o meu? "

"Deixe-me ver: nascido em Saint-Rémy, no dia 12 de dezembro de 1503. Sim, este é seu."

"É de fato o dia 14."

"14º? Eu devo ter marcado errado no topo, porque eu sempre confiro tudo três vezes. Deve ser velhice", e Vovô se desculpou. "Em todo caso, você tem um horóscopo carregado com três planetas exteriores: Marte, Júpiter e Saturno. Por causa desta configuração feroz, você precisará de disciplina férrea para controlar o seu poder criativo. Se você não suceder nisso, o poder poderá se tornar destrutivo."

"Você quer dizer, igual a Sansão que fez um templo inteiro desmoronar? "
"Hmm... esta comparação não é tão boa. Em todo caso, você terá que aprender a canalizar suas energias. E lembre-se sempre, que em todas as pessoas existe tanto o bem como o mal", e Jean chamou a sua atenção ao horóscopo.

"Este quadro aqui mostra as doze casas e...". Mas a voz dele hesitou de repente.

"Eu estou cansado", ele ofegou, "mas se você quiser aprender mais, tudo está descrito naquele volume massivo ali" e ele apontou para uma estante. O avô não estava mais acessível.

Com o passar do tempo, Jean e Michel tornaram-se cada vez mais devotados um ao outro. Freqüentemente eles passavam o dia inteiro num velho convento * que ficava escondido algumas milhas ao sul de Saint Rémy. Eles passavam horas lendo bíblias originais. Michel aprendeu, acima de tudo, rezar ao Deus Cristão e seguiu sem esforço as escrituras sagradas católicas, apesar da sua origem judía. Afinal de contas, Deus é o mesmo do Velho Testamento, pensava ele. Jean sempre murmurava enquanto rezavam, pelo menos quando ninguém estava ao redor. Do priorado, quando o tempo estava bom, eles caminhavam através dos campos rodeados de lavanda, onde tinham encontrado uma estrutura misteriosa, meio-escavada em forma de pirâmide. O avô bem lido podia comentar sobre quase tudo.

"Dos tempos gregos antigos", ele disse sobre a estrutura enquanto repousava nela. Michel, ao contrario, estava cheio de energia e foi fazer explorações pela área enquanto Jean tirava a sua pequena soneca habitual. Um dia, o menino voltou todo excitado.

"Perto daqui, há todo tipo de buracos escavados das rochas, Vovô. Venha e veja! " Mas Jean ficou tranquilamente onde estava e calmamente explicou que há muito tempo, pastores tinham feito esses buracos para as suas cabras para protegê-las de predadores. Aparentemente, ele já os tinha descoberto antes. Uma vez, ele mal podia se levantar e Michel literalmente teve que arrastá-lo para casa.

Durante a adolescência, o jovem começou a notar as meninas e esta era uma boa oportunidade para o seu mentor falar sobre o casamento de duas almas. Ele explicou como as almas masculinas e femininas podem fundir-se e o princípio masculino/feminino é representado em todos os lugares no universo.

"Você quer dizer que há planetas masculinos e femininos também?" perguntou Michel.

"Os planetas são, em princípio, todos femininos. É por isso que o nosso planeta é chamado Mãe Terra, Jean respondeu.
"E nós temos alguma coisa a dizer, no cosmos? "

"Bem, as estrelas são masculinas, em contraste com o pó e a escuridão, que são femininos. Estas eternas polaridades também são a essência da alquimia."

O menino passou a maioria de sua infância ao ar livre com o avô e os pais não viram muito do filho durante seu rápido desenvolvimento. Eles só estavam juntos nas horas da refeição. Não era só a culpa de Michel ou de Jean que eles viram tão pouco um do outro; Jacques trabalhava na prática do tabelião o dia todo e Reynière, além de cuidar da casa, tinha as mãos cheias com as crianças menores. Antoine, de sete anos, era um caso especialmente difícil, porque sempre exibia um comportamento obstinado. Quanto ao resto, Michel se dava bem com os irmãos pequenos, mas brincar com eles? Não, havia pouca chance para isso.

As estações passaram muito agradavelmente, até aquele dia triste. Eles encontraram o querido velho Vovô nos seus aposentos. Ele tinha morrido de velhice. Michel tinha observado a sua deterioração por uns tempos e sabia que o fim estava previsto. Não obstante, foi um evento devastador.

Estava chuviscando no dia do funeral de Jean de Saint-Rémy. Mantiveram vigília sobre o corpo na casa revezando-se até que o levaram para o serviço do enterro. Todos os membros da família estavam lá. O velho Pierre e a esposa tinham vindo de Grasse, como também as três irmãs de Jean e os primos mais próximos de Marselha. O serviço católico de oração teve lugar na igreja de Selongey. As famílias caminharam para a igreja onde o caixão tinha sido colocado. Os avôs de Michel estavam andando tão devagar, que ele teve tempo suficiente para observar as casas caprichosamente enfeitadas com torres na Place des Halles. Finalmente chegaram à igreja onde a multidão de amigos e conhecidos se tinham juntado. À entrada, um homem alto de cabelos ruivos por acaso foi de encontro com Michel. Os sapatos dele estavam cobertos de pintura. Aparentemente ele não era um convidado, mas quis entrar. Michel não prestou muita atenção a ele e o cortejo fúnebre moveu lentamente pelo imponente portão em forma de arco. Jacques e Reynière foram os primeiros para passar uma fileira de pilares na igreja e eles foram seguidos por Michel e os quatro irmãos em ordem cronológica. Reynière foi superada por emoção, de vez em quando derramando uma lágrima para o pai. O público estava sentado nos bancos de madeira na capela principal, onde o caixão estava montado na área central. A igreja de Selongey tinha várias capelas que estavam iluminadas por janelas com divisões cor de sangue. Bem ali no alto estava pendurada uma pintura de um apóstolo. A última pessoa a entrar tinha achado um lugar e o Padre Bergé, com um manto vermelho desbotado sobre os ombros, começou o sermão. O serviço funerário era, como todos sabiam, em função da purificação e o eterno repouso da alma do defunto.

"Quando alguém morre, isto significa que ele irrevogavelmente deixa este mundo. Esta pessoa então estará com Deus. Este não é um fim, mas um novo começo. Aqueles que viveram vidas exemplares irão para o céu, e aqueles que viveram vidas de pecadores irão para o inferno. A transição da vida para a morte nem sempre é uma passagem harmoniosa. Mas Deus protege todos nós, porque ele compreende as vidas complicadas dos seres humanos e aceita todos como eles são." O Padre então folheou a Bíblia desajeitadamente por detrás da estante e começou a ler uma longa passagem em latim. Michel deu uma olhada e reconheceu a fonte de metal da água santa na forma da torre da igreja de cabeça para baixo, na qual um dos seus amigos tinha quase se afogado uma vez. Velas queimavam por todos os lados, havia tantos que até mesmo o tumulo do fundador da igreja na capela dianteira foi iluminado. A sua imagem gravada era visível à entrada. Jean tinha conseguido interessar o neto pelas artes e a cultura há muito tempo. Eles tinham visitado juntos a igreja de Selongey várias vezes. Michel conhecia bem o interior e tinha mais vontade de examinar os murais do que ter que escutar o som monótono da voz de Bergé. Ou a abóbada blindada na sacristia! Mas não podia, é claro. Embora soubesse que o avô estaria perfeitamente de acordo. "A vida antes da morte", ele sempre dizia. Finalmente, o criado de Deus elogiou o defunto pela caridade dele, no seu francês ordinário, e as visitantes se sentaram novamente em posição reta. Michel viu o carilloneur, que era quase surdo, se levantar. Ele estava ansioso para subir para junto dos seus quarenta e oito sinos da igreja para tocá-los, e começou a subida pelas escadas da torre. Enquanto isso, o padre borrifava o corpo com água benta, perfumando-o com Frankincense. Isto indicava que o corpo do defunto estava num estado de santidade perante Deus. O assistente rezou mais algumas orações pedindo perdão por alguns pecados de Jean. Depois dos hinos, o padre e os ajudantes procederam para fora da igreja com os carregadores da mortalha, seguidos pelo caixão. Todos se juntaram caminhando atrás deles. Os sinos da igreja estavam tocando e todos alcançaram o cemitério em silêncio. A família, amigos e outras pessoas interessadas que se tinham juntado, reuniram-se ao redor da sepultura que tinha sido preparada, para onde os portadores da mortalha abaixaram lentamente o caixão. Reynière depositou algumas flores apressadamente sobre o caixão antes que o padre levantasse a cabeça em silencio, abençoando a sepultura e dizendo um "Padre Nosso". Depois de terminar a oração, ele lançou um punhado de terra sobre o caixão, com as palavras, "Terra para terra; cinzas para cinzas, pó ao pó". Então todos disseram adeus ao jovial Jean depositando os seus próprios punhados de terra sobre o caixão, com Michel vendo o falecido amigo lentamente desaparecer. Finalmente, Jacques agradeceu a todos pelas suas presenças em condolência e a família tristemente voltou para casa.

"Este sótão é tão sem vida e desolado agora", Michel murmurou, quando a mãe foi chamada inesperadamente escada abaixo por um dos filhos.

"Eu voltarei logo, Michel", e deixou-o no sótão. Da janela do sótão, ele deu uma boa olhada pela cidade. Ele descobriu uma casa nova à meia milha de distancia, que fora construída sem que ele tivesse percebido. Uma das janelas da casa estava aberta; era de vidro, sem precedente...mas estava muito longe para ver bem.

Eu sei que posso usar o copo-espião de Vovô, ele lembrou de repente e logo podia vislumbrar todos os pontos daquela casa. Então o jovem não pôde resistir à tentação para dar uma olhada por dentro. Ele viu um homem alto, de cabelo curto, escuro, que estava trabalhando concentradamente diante de um cavalete de pintura.

Por que alguém queria imitar girassóis? Michel ponderava com surpresa. A pessoa desconhecida estava de pé diante de uma tela e repetidamente mergulhava o pincel na tinta. Num certo ponto, ele apanhou outro pincel, usando-o para pintar os detalhes finos, novamente olhando para os girassóis reais que estavam arranjados negligentemente sobre uma mesa atrás da tela. De repente, o artista sentiu que estava sendo observado, virando-se bruscamente. O voyeur se assustou fora de si e se sentia apreendido, embora possivelmente não pudesse ter sido visto, pensou. Se bem que era como se o estranho estivesse encarando ele, embora amigavelmente. Foi só então que Michel percebeu que este era uma outra espreitadela no futuro. O outro mundo dissolveu quase instantaneamente depois disto. A casa também tinha sumido. É pena, não ter ninguém para poder compartilhar o meu devaneio, pensou tristemente.



Capitulo 2



www.nostredame.info